27/06/2007 Paralelamente naquela tarde, a Fernanda, o Roberto e outros alunos do curso, estavam fazendo provas de Historia da Arte com a Beth Rabete, quando entrou na sala o Érick Nilsen para avisar que a Polícia Federal havia cercado a escola para impedir a exibiçâo do filme! Claro que toda a garotada ficou assustada e apreensivos... Viviamos como nos brabos tempos da repressão. A Bia, uma amiga de sala e filha de um torturado político, se conservou junto a Fernanda e nervosíssimas, viam os policiais invadir a escola à paisana: eram alguns disfarçados de `garotões´ e outros de terno e gravata... Anoiteceu, e nem a minha amiga Fernanda, nem ninguém, ainda acreditava no que estavam vivendo. Cheguei na CAL, e vi todo aquele burburinho, mas na minha santa inocência pensei que era gente interessada em ver o filme... O elevador estava enguiçado.. Subi todos aqueles degraus, tinha gente por todo lado... Consegui encontrar a Fernanda que me contou o que estava de verdade acontecendo... Ah meus deuses, me lembrei dos meus tempos de UNI, do CPC, das correrias de 68... Quase na hora do "evento", muitos jornalistas, fotografos, e quase todos os grandes nomes da arte estavam presentes na sala do segundo andar da Cal, e onde só caberiam espremidos umas 100 pessoas, havia umas 300 ou mais! Parecíamos lata de sardinha, e os federais fechando com seus corpos todas as portas antigas daquela sala. A Bia com início de pânico apertava o braço da Fernanda, que continuava achando que era tudo uma ilusão... Mas, o que seria tão grave pra Igreja Católica fazer tamanho alvoroço, e a Policia provocar esse aparatoso e exuberante movimento repressor? Seria justamente aquilo que qualquer estudioso de teologia sabe? Então, do alto da arquibancada onde estávamos espremidos, sob aplausos, a sala escureceu, e a exibição começou... e logo em seguida, a tela improvisada onde a película era projetada começou a tremer! Eram outros federais invadindo a sala por outro local para prender o Gabeira e pegar o filme. Acenderam parte das luzes, e naquela balburdia sumiram com a cópia antes que a federal pegasse, mas prenderam o Gabeira. Tumulto total! Será que iriam prender outras pessoas? Pânico geral! Nem pensamos, pulamos do alto da arquibancada lá embaixo e saímos espremidos no meio da turba apavorada... Nos perdemos do Roberto, e descemos correndo pelas escadarias da CAL, por onde achávamos que não iriam passar e paramos no portão lá de cima, perto do bondinho de plano inclinado. Pois não é que eles fizeram justamente o mesmo trajeto nosso? Quando perto do portão, olhamos para cima e Fernanda disse: `estamos em Hollywood!´, estávamos abismados pela quantidade de flashs que pipocavam registrando a prisão do Gabeira. Escoltado, êle passou rente a nós, e a Fernanda atrevida disse pra ele: "É ISSO AÍ, GABEIRA!" Ele bateu na mão dela, sorriu e seguiu levado pelos agentes da Policia Federal. Todo o pessoal (brasileiros!) que ali estava desceu atrás cantando 'JÁ PODEIS DA PÁTRIA FILHO, VER CONTENTE A MÃE GENTIL. JÁ RAIOU A LIBERDADE, NO HORIZIONTE DO BRASIL..." Foi de arrepiar viver aquela emoção nunca imaginada no final do século XX, num Brasil onde já se dizia que a ditadura não existia mais. Pois a dita foi dura e Gabeira preso mesmo, e depois solto. Ficamos com esse registro na nossa memória. Outro dia, conversando a Fernanda me lembrou disso tudo... Oh noite.. Obrigado Fernanda! Esse caso serve pra puxar um outro: a Fernanda, como eu, e outros atrevidos, sempre estivemos vivendo momentos de turbulência dentro da sociedade formal...Há poucos anos, quando ela evidenciou um grande potencial mental através do Budismo, lhe ameaçaram de morte e até lhe internaram num hospício para ficar desacreditada. Pobre raça humana, mas não conseguiram segura-la por muito tempo. Quando voltou ao Rio quase desistindo de sua crença budista, sentada numa pizzaria do Recreio, de uma família que nunca tinha visto antes e que estava sentada perto dela, ouviu sem mais nem menos: "NÃO VENHA ATRAPALHAR A PROCISSÃO!". Aí é que ela se decidiu realmente voltar a praticar, e viver na fé de Buda. Então, sei muito bem o que significa isso... Continuemos com nossas crenças, que ninguém, nem hospício e nem polícia federal poderá nos tirar: VAMOS SEMPRE ATRAPALHAR AS PROCISSÔES! Hoje, depois de fazer de tudo em artes estou em Madrid curtindo um exilo voluntário; Fernanda Lobo fez teatro e TV, definitivamente passou a ser budista e vive feliz em Cataguazes; Fernando Gabeira é Deputado e sempre alfinetando o governo; e o filme `Je vous salue Marie!´ virou uma referencia e é encontrado em qualquer locadora... Graças aos deuses!!! Boa noite, boa sorte e liberdade de para todos nós...
..com a "Araca"... Lembram da Aracy?
eu gostava de papear com essa dificil figura..
tinhamos coisas parecidas... ela que carregou o estigma de Noel por toda vida...
25/06/2007 Em 1986 o meu amigo Roberto Pallu resolveu embarcar na vida dos palcos e fazer o curso de teatro na CAL (Centro de Artes de Laranjeiras), e por meio dele conheci alguns de seus colegas de classe, entre eles a Fernanda Lobo.. Era uma garotona cheinha, sempre muito simpática e de bom papo, esotérica, cultuava essas coisas misticas.. Reencontrei a Fernanda através do Orkut, e entre conversas relembramos uma certa noite... A CAL ficava num bonito e antigo palacete dos anos 40, num alto cercado de arvores, quase isolado do resto do casario na sua frente; tinha o portão principal na rua das Laranjeiras, suas escadarias e um elevador inclinado, que levavam ao portão lá em cima no jardim do solar... Um dia o Roberto me avisou que o Fernando Gabeira, ousadamente, atrevidamente, iria promover na noite seguinte uma exibição do filme `Je vous salue Marie´ na CAL! Era um filme francês do ano anterior, dirigido por Jean-Luc Godard, que embora apoiado pela critica, vinha causando poêmicas e estava execrado pela Igreja Católica, porque a película modernamente tratava da falsa virginidade da `virgem´ Maria... Aliás, para informação: sabiam que só em 8 de dezembro de 1854, foi `decretado´ pelo papa Pio IX (querem o texto da bula?) o dogma da Imaculada Concepção - ou como dizemos: Conceição, sem que ninguem se ligue na concepçâo da palavra, e ficou daí em diante esse dia do ano como o dia de N.S. da Conceiçâo (Concepçâo...)... Ou seja, só 19 séculos depois do seu nascimento e do seu parto prodigioso, que a honra de Maria foi colocada a salvo das duvidas e murmúrios, quando a Igreja `resolveu afirmar oficialmente´ que a sua `pureza´ antes e depois do parto, não era uma suposição teológica e sim, uma dádiva unica de Deus!!! PODE? Virginidade por decreto papal! Naturalmente, que a Censura Federal, num país que sempre baixou as calças e entregou o trazeiro ao Vaticano, proibiu o filme no Brasil! Eu não podia perder essa oportunidade de conhecer esta obra e participar dessa atitude audaciosa... Morando em Copacabana, naquela tarde me preparei pra chegar mais cedo na CAL e conseguir um bom lugar, e quem sabe, até bater um papo com o Gabeira, a quem todo o país admirava pelo que contava no seu livro `O que é isso companheiro?´... E saí pra lá muito ansioso...
Bilhete de Helmut Berger num guardanapo de papel da boite Number One!
20/11/2006 Eu atuava no Number One todas as noites de quarta a domingo. Mas numa terça feira, apareceu por lá a Noelza Braga, a Gigi Caravaggio mais a Ionita Guinle com um grupo de amigos, trazendo pra me ver o Helmut Berger! Ficaram desolados por não haver função, ficaram um pouco e se foram. Eu só vim saber dessa visita no dia seguinte, quando recebi o recado explicando tudo num cartão de visitas que até hoje tenho guardado... Fiquei com uma pena, havia perdido a oportunidade de conhecer de perto um dos meus ídolos, um astro que trabalhara com Dirk Bogarde em 'Deuses Malditos', sob a direção de Luchino Visconti! Como esquecer aquela cena em que seu personagem fazia completamente drogado a imitação de uma cantora de cabaré, vestido num espartilho, para escândalo da família... Ai que pena! Mas, para surpresa minha, duas noites depois me apareceu entre a platéia da boate o Helmut com um amigo! Foi um show lindo e entregado como sempre, e ao final, recebi no camarim um recado do artista, escrito num guardanapo de papel! O Mauro Furtado, proprietário da casa, sentia-se felicíssimo que o grande astro havia aplaudido meu show e prometido voltar... E voltou! Na noite seguinte, e com o mesmo acompanhante! Após o show, mandou convidar-me a sua mesa... Bebíamos whisky e ele falava um inglês enrolado e eu não entendia praticamente nada, mas as entrelinhas eu ‘entendi’ tudo... Terminei indo para o Copacabana Pálace com ele... E mais não conto... E precisa?...
Quem lembra? o ator Marcos Nanini, eu, e Tuca, a maravilhosa e gorda cantora-compositora paulista...